Sobras das Refeições, 2014
vídeo/conversa - 47´
“Lembro-me da primeira vez que entrei naquela sala. Já tinha entrado num outro tempo, mas não falo desse tempo, falo da vez em que entrei e vi a cena, vi o plano de cinema, o enquadramento da...

Sobras das Refeições, 2014

vídeo/conversa - 47´

“Lembro-me da primeira vez que entrei naquela sala. Já tinha entrado num outro tempo, mas não falo desse tempo, falo da vez em que entrei e vi a cena, vi o plano de cinema, o enquadramento da fotografia, a sua moldura. 

Só usamos uma luz no candeeiro, é para poupar. Mas no Natal usamos as duas. A luz na sala é perfeita pensei eu para mim, cria uma dúvida quanto à sua débil arquitectura, o fundo, só quando nos aventuramos a circular se revela. Há cicatrizes, umas tapadas com panos ou carpetes, mas elas estão lá, fazem parte e apesar da sombra mostram-se. A mesa revela a reunião do dia que passou e ficou substituída pela nova celebração. As sobras das refeições eram respeitadas nesta mesa, e no dia em que eu apareci nenhuma sobra foi guardada ou deitada ao lixo. Queres que arrume a mesa? Não era preciso, as coisas deviam ficar em cima da mesa, sentamo-nos. 

Só usamos uma luz no candeeiro, é para poupar. Mas no Natal usamos as duas. A luz na sala é perfeita pensei eu para mim, cria uma dúvida quanto à sua débil arquitectura, o fundo, só quando nos aventuramos a circular se revela. Há cicatrizes, umas tapadas com panos ou carpetes, mas elas estão lá, fazem parte e apesar da sombra mostram-se. A mesa revela a reunião do dia que passou e ficou substituída pela nova celebração. As sobras das refeições eram respeitadas nesta mesa, e no dia em que eu apareci nenhuma sobra foi guardada ou deitada ao lixo. Queres que arrume a mesa? Não era preciso, as coisas deviam ficar em cima da mesa, sentamo-nos. 

A verdade é que não havia guião, isto não é um filme mas apresenta-se em moldes próximos. Uma conversa sem guião que cedo se revelou uma conversa inesgotável. Há uma projecção, uma narrativa, mas não é um filme, é uma conversa. Uma conversa que não começa ali nem acaba aqui, é um fragmento, uma pequena escolha de um igual momento, momento esse que se relaciona, essa relação íntima que encontramos nele e nela, na sala e na conversa. Começou sentados à mesa, ela assumiu a história, mas perdia-se, no entanto revelava uma contadora com diferentes vozes nas personagens  e onomatopeias pelo meio. Ele corrigia-a e enganava-se, eu ria-me e adorava todos aqueles restos. 

Ele arquivava no seu tempo, os selos que me mostrou qualificava-o como excelente na sua função. Era válido, era uma forma, uma prova das coisas, da verdade, da sua veracidade e autenticava o tempo. A verdade é que perdeu-se tudo e ele ainda se arrepende. 

Ela lutava contra o pai. Próximos de relação mas afastados de pensamentos. Uma relação sem falta de verdade. A idade também era espaçada, outros tempos, tempos em que era melhor estar calado e não andar em grupos. Uma relação sem falta de verdade.

Não é um filme, é uma projecção com uma conversa. Falamos do que já foi, das sobras, das memórias que não são todas, foram as que apareceram mais na superfície. Existe uma forma, mas dificilmente podemos apelidar de definitiva. Houve um folhear de memórias.

Foi uma conversa à mesa, mesa cheia. Num lado ele, no outro lado ela e eu estava no meio a ouvir.”

https://vimeo.com/87037527

Sobras das Refeições, 2014
vídeo/conversa - 47´
“Lembro-me da primeira vez que entrei naquela sala. Já tinha entrado num outro tempo, mas não falo desse tempo, falo da vez em que entrei e vi a cena, vi o plano de cinema, o enquadramento da...

Sobras das Refeições, 2014

vídeo/conversa - 47´

“Lembro-me da primeira vez que entrei naquela sala. Já tinha entrado num outro tempo, mas não falo desse tempo, falo da vez em que entrei e vi a cena, vi o plano de cinema, o enquadramento da fotografia, a sua moldura. 

Só usamos uma luz no candeeiro, é para poupar. Mas no Natal usamos as duas. A luz na sala é perfeita pensei eu para mim, cria uma dúvida quanto à sua débil arquitectura, o fundo, só quando nos aventuramos a circular se revela. Há cicatrizes, umas tapadas com panos ou carpetes, mas elas estão lá, fazem parte e apesar da sombra mostram-se. A mesa revela a reunião do dia que passou e ficou substituída pela nova celebração. As sobras das refeições eram respeitadas nesta mesa, e no dia em que eu apareci nenhuma sobra foi guardada ou deitada ao lixo. Queres que arrume a mesa? Não era preciso, as coisas deviam ficar em cima da mesa, sentamo-nos. 

Só usamos uma luz no candeeiro, é para poupar. Mas no Natal usamos as duas. A luz na sala é perfeita pensei eu para mim, cria uma dúvida quanto à sua débil arquitectura, o fundo, só quando nos aventuramos a circular se revela. Há cicatrizes, umas tapadas com panos ou carpetes, mas elas estão lá, fazem parte e apesar da sombra mostram-se. A mesa revela a reunião do dia que passou e ficou substituída pela nova celebração. As sobras das refeições eram respeitadas nesta mesa, e no dia em que eu apareci nenhuma sobra foi guardada ou deitada ao lixo. Queres que arrume a mesa? Não era preciso, as coisas deviam ficar em cima da mesa, sentamo-nos. 

A verdade é que não havia guião, isto não é um filme mas apresenta-se em moldes próximos. Uma conversa sem guião que cedo se revelou uma conversa inesgotável. Há uma projecção, uma narrativa, mas não é um filme, é uma conversa. Uma conversa que não começa ali nem acaba aqui, é um fragmento, uma pequena escolha de um igual momento, momento esse que se relaciona, essa relação íntima que encontramos nele e nela, na sala e na conversa. Começou sentados à mesa, ela assumiu a história, mas perdia-se, no entanto revelava uma contadora com diferentes vozes nas personagens  e onomatopeias pelo meio. Ele corrigia-a e enganava-se, eu ria-me e adorava todos aqueles restos. 

Ele arquivava no seu tempo, os selos que me mostrou qualificava-o como excelente na sua função. Era válido, era uma forma, uma prova das coisas, da verdade, da sua veracidade e autenticava o tempo. A verdade é que perdeu-se tudo e ele ainda se arrepende. 

Ela lutava contra o pai. Próximos de relação mas afastados de pensamentos. Uma relação sem falta de verdade. A idade também era espaçada, outros tempos, tempos em que era melhor estar calado e não andar em grupos. Uma relação sem falta de verdade.

Não é um filme, é uma projecção com uma conversa. Falamos do que já foi, das sobras, das memórias que não são todas, foram as que apareceram mais na superfície. Existe uma forma, mas dificilmente podemos apelidar de definitiva. Houve um folhear de memórias.

Foi uma conversa à mesa, mesa cheia. Num lado ele, no outro lado ela e eu estava no meio a ouvir.”

https://vimeo.com/87037527

Posted 5 years ago 1 note View high resolution

Notes:

  1. pauloosorio posted this

About:

Nasceu no Porto , Portugal em 1990.
Tirou o Curso Artes Plásticas - Multimedia na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2008/12)

Born in Porto, Portugal in 1990.
Graduated in Fine Arts - Multimedia at the Faculty of Fine Arts - University of Porto
(2008/12)


Artista residente na 1ª Avenida (1ªfase), Porto, 2013 / Artist resident in 1ª Avenida, Oporto, 2013

Exposições / Exhibitions:

-"Box" - Cozinha, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, 2010
-Exposição Colectiva "Printed Matters" - Cozinha, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, 2011
-Exposição Colectiva "PS 22A, V1.0" - Lofte, 2011
-Exposição Colectiva "PS 22A, V2.0 Part.1" - Auditório Municipal de Vila do Conde, 2012
- Exposição Colectiva "Convergent Boundaries - uma mostra P411" - Laboratório das Artes, Guimarães, 2012
- Exposição Colectiva "FUTURO NÃO FUTURO" - Palacete Pinto Leite, Porto, 2012
- Exposição Colectiva "JOINT OF TWO IMPROBABLE FIELDS - INTERCEÇÃO IMPROVÁVEL" -Prisão Simulada da Faculdade de Direito, Porto, 2013
- Exposição 1ª Avenida, Porto, 2013
- Performance "L´uomo delinquente, 1ºAvenida, Porto, 2013
- RECONSTRUIR A CASA / Encontro de Performance, IPDJ, Porto, 2013
- TEORIA DA PINTURA - uma colecção quase objecto, ou mais - AISCA - Viana do Castelo, 2014
- 40 anos do 25 de Abril | Espaço Mira “Como se o mundo tivesse de ser todo, novamente, reaprendido”, Porto 2014
- Arte em Segredo, Galeria dos Leões, Reitoria da Universidade do Porto, Porto 2014
- Exposição Colectiva Sentido(s) Direction(s), Fórum da Maia, Porto 2014


https://vimeo.com/pauloosorio


Contacto / Contact:

pauloosorio.almeida@gmail.com

Following: